DESCRIÇÃO DO JAPONÊS E DO VIETNAMITA NO SÉCULO XVII E A SUA RELEVÂNCIA PARA O PRINCÍPIO DA POLIDEZ

  • Gonçalo FERNANDES, Prof. Dr. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portuga Centro de Estudos em Letras
  • Carlos ASSUNÇÃO, Prof. Dr. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portuga Centro de Estudos em Letras
Palavras-chave: Linguística, Linguística missionária, Historiografia Linguística, História das Ideias Linguística, Jesuítas, Formas de Tratamento

Resumo

RESUMO: O chamado “princípio da polidez” foi formulado antes mesmo de Stephen Curtis Levinson estabelecer a pragmática como um campo acadêmico da linguística, no início da década de 1980. Ainda assim, trabalhos relevantes sobre pragmática já vinham sendo publicados desde a década de 1930, nomeadamente por Charles Sanders Peirce (1839–1914), Charles William Morris (1901–1979) e Yehoshua Bar-Hillel (1915–1975). Por outro lado, é amplamente reconhecido que Penelope Brown e Stephen Curtis Levinson (1978; 1987) consolidaram a noção de princípio da polidez, em virtude do impacto e da sistematicidade de seus estudos nessa área. Embora o artigo de 1973 de Robin Beth Tolmach Lakoff (1942–2025), intitulado The logic of politeness: Or, minding your p’s and q’s, possa ser considerado a verdadeira “certidão de nascimento” do princípio da polidez como domínio linguístico, ele é frequentemente ignorado, mesmo em artigos e livros especializados. Com base em um trabalho de 1967 de Herbert Paul Grice (1913–1988) sobre as regras da conversação, então ainda sob a forma de manuscrito não publicado, Lakoff sintetizou as expressões de polidez em três regras fundamentais. No entanto, gramáticos e linguistas dedicados às línguas asiáticas sempre demonstraram um interesse particular na descrição das expressões e formas de tratamento. Com efeito, em 1944, Hsien Chin Hu (Columbia University) publicou um artigo pioneiro sobre os “conceitos chineses de face”, antecipando em 11 anos a teoria da face e o célebre artigo de Ervin Goffman (1922–1982), On face-work: an analysis of ritual elements in social interaction (Goffman 1955). De modo ainda anterior, gramáticos e lexicógrafos europeus do século XVII, dedicados às línguas japonesa e vietnamita, já partilhavam preocupações semelhantes ao descrever as regras linguísticas que regiam as relações sociais. Assim, neste artigo, analisamos as abordagens desenvolvidas pelos primeiros gramáticos e lexicógrafos europeus para explicar o princípio da polidez nas línguas japonesa e vietnamita no século XVII, em particular João Rodrigues ‘Tçuzu’, S.J. (1562–1633), Diego Collado, O.P. (final do século XVI–1638) e Alexandre de Rhodes, S.J. (1593–1660), bem como a relevância de suas contribuições para a linguística contemporânea.

 

PALAVRAS-CHAVE: História das Ciências da Linguagem. Linguística Missionária. Formas de Tratamento. Teoria da Face. Jesuítas. Pragmática.

 

DESCRIPTION OF JAPANESE AND VIETNAMESE IN THE 17TH CENTURY AND ITS RELEVANCE TO THE POLITENESS PRINCIPLE

 

ABSTRACT: The so-called “politeness principle” was formulated even before Stephen Curtis Levinson established pragmatics as an academic field of linguistics in the early 1980s. Nevertheless, relevant works on pragmatics had already been published since the 1930s, notably by Charles Sanders Peirce (1839-1914), Charles William Morris (1901-1979), and Yehoshua Bar-Hillel (1915-1975). On the other hand, it is widely recognized that Penelope Brown and Stephen Curtis Levinson (1978; 1987) consolidated the notion of the politeness principle due to the impact and systematic nature of their studies in this area. Although Robin Beth Tolmach Lakoff’s (1942–2025) 1973 article, titled The Logic of Politeness: Or, Minding Your P’s and Q’s, can be considered the true "birth certificate" of the politeness principle as a linguistic domain, it is often overlooked, even in specialized articles and books. Based on a 1967 work by Herbert Paul Grice (1913–1988) on conversational rules – then still an unpublished manuscript – Lakoff synthesized expressions of politeness into three fundamental rules. However, grammarians and linguists dedicated to Asian languages have always shown a particular interest in describing expressions and forms of address. Indeed, in 1944, Hsien Chin Hu (Columbia University) published a pioneering article on “Chinese concepts of face,” anticipating Ervin Goffman’s (1922–1982) famous paper, On Face-work: An Analysis of Ritual Elements in Social Interaction (1955), by eleven years. Even earlier, 17th-century European grammarians and lexicographers working on the Japanese and Vietnamese languages already shared similar concerns when describing the linguistic rules governing social relations. Thus, in this article, we analyze the approaches developed by the first European grammarians and lexicographers to explain the politeness principle in Japanese and Vietnamese during the 17th century—specifically João Rodrigues ‘Tçuzu’, S.J. (1562–1633), Diego Collado, O.P. (late 16th century–1638), and Alexandre de Rhodes, S.J. (1593–1660)—as well as the relevance of their contributions to contemporary linguistics.

 

KEYWORDS: History of Language Sciences. Missionary Linguistics. Forms of Address. Face Theory. Jesuits. Pragmatics.

Biografia do Autor

Gonçalo FERNANDES, Prof. Dr., Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portuga Centro de Estudos em Letras

Dois dos principais expoentes da Historiografia Linguística em Portugal, Gonçalo Fernandes é Professor Catedrático de Ciências da Linguagem na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), possui licenciatura em Humanidades (via Ensino) pela Faculdade de Filosofia de Braga, na Universidade Católica Portuguesa, mestrado em Linguística Descritiva Portuguesa pela Universidade do Porto, doutoramento em Linguística Portuguesa e habilitação em Ciências da Linguagem pela UTAD. Desde 2017, é Diretor do Centro de Estudos em Letras (CEL). Colabora ativamente em redes internacionais de investigação que envolvem universidades do Japão, Brasil, Países Baixos, França e Espanha. Os seus principais interesses de investigação centram-se na historiografia linguística do português e do latim-português e na linguística missionária em países sob o Patrocínio Real Português, nomeadamente Angola, Moçambique, Índia, Japão, China, Vietname e Brasil. Suas contribuições acadêmicas incluem artigos e capítulos de livros publicados por algumas das revistas e editoras mais renomadas do mundo, como Cambridge University Press, Oxford University Press, Routledge, Taylor & Francis (Reino Unido), John Benjamins (Países Baixos), Nodus Publikationen (Alemanha) e Peeters (Bélgica). Em sua atuação profissional, também dirigiu o Departamento de Letras, Artes e Comunicação (2009-2013) e supervisionou diversos programas de graduação, mestrado e doutorado. Além disso, presidiu o Conselho Pedagógico da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais de 2017 a 2021.

Carlos ASSUNÇÃO, Prof. Dr., Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portuga Centro de Estudos em Letras

Carlos da Costa Assunção é Professor Catedrático também na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (desde 2002); obteve o seu doutoramento em 1996 e o ​​título de agregado em 2001. É especialista em Historiografia Linguística e Linguística Missionária. Membro do Conselho de Gestão Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal. Foi Vice-Reitor para a Investigação e Cooperação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal (2010-2013), bem como Diretor do Centro de Estudos em Letras (CEL) da mesma UTAD em períodos distintos, destacando-se de dezembro de 2003 a março de 2011 e, posteriormente, de 2013 a abril de 2017. Publicou dezenas de artigos em revistas especializadas/indexadas e dezenas de trabalhos em atas de congressos, é autor de vários capítulos de livros e tem cerca de três dezenas de livros publicados/editados. Participou em mais de cinquenta eventos no estrangeiro e em Portugal, frequentemente como orador convidado. Orientou mais de uma dezena de teses de doutoramento e mais de duas dezenas de dissertações de mestrado. Entre 1997 e 2023, participou em mais de uma dezena de projetos de investigação em Portugal e no estrangeiro, coordenando oito deles. Trabalha na área das Ciências Humanas, com ênfase na área da Linguística.

Publicado
2026-06-02