DISTOPIA, HISTÓRIA E IDENTIDADE EM NAMÍBIA, NÃO!
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar como o elemento distópico na peça teatral Namíbia, não!, de Aldri Anunciação (2012), evoca reflexões críticas sobre as relações étnico-raciais no Brasil contemporâneo, assim como em seu passado histórico. As análises se situam num espaço interdisciplinar de análise, recorrendo à historiografia, representada por Chalhoub (2012), às teorias do drama (Sarrazac, 2012), e da mímesis (Ricœur, 2010). Partindo do pressuposto de que o gênero literário distópico localiza problemas do presente e do passado em um futuro especulativo (Gaiman, 2013), busca-se demonstrar como o passado histórico da escravidão e da segregação são reinterpretados e reatualizados no drama de Aldri Anunciação por meio de recursos linguísticos, cênicos e simbólicos, tais como a ironia, o estranhamento, o espaço e o jogo cromático efetuado pelo autor. Conclui-se que Namíbia, não! instaura uma ética da recepção, ao colocar o leitor ou espectador como um elemento chave no processo de mímesis, fornecendo elementos tanto formais quanto estéticos para que o leitor reflita sobre o nosso passado escravista e os problemas contemporâneos de identidade e relações étnico-raciais.